A personalidade integral em coaching

O coaching integral é como uma fera às avessas, que recolhe a presa aos pedaços e faz dela um todo coeso.

Warren Bennis se referiu assim à integridade organizacional: “A personalidade integral [...] Falo de um tipo de unidade – de propósitos, metas, ideias e comunicação – que faz de três mosqueteiros Os Três Mosqueteiros. É uma fusão de identidades e resoluções em um todo eficaz e coerente”.

Talvez seja este o objetivo maior da “fera”: conduzir o indivíduo por um processo de aprendizagem e desenvolvimento, até chegar à integração. Com todas as usuais facetas de uma personalidade perfeitamente normal, isso talvez leve tempo, mas é um tempo bem empregado. A integração se manifesta no âmbito da mente, do comportamento e da atuação do indivíduo em contextos sociais e culturais.

Contribuir para o crescimento de outro ser humano e deve ser um dos maiores dons do mundo pós-moderno.

O processo de integridade

Em Experiential Learning, David Kolb afirma: “... integridade é um sofisticado processo integrado de aprendizagem, de saber. Não se trata de um conjunto de traços do caráter, como honestidade, coerência ou moralidade”.

Assim como Vaillant discutiu níveis superiores de adaptação e mecanismos maduros, Kolb vê algo que surge em um estágio mais elevado do desenvolvimento do ego. Quando dizemos que um indivíduo se tornou uma “pessoa integral”, significa que ele passou por um “processo de aprendizagem por meio do qual foram citados padrões intelectuais, morais e éticos”.

Segundo a visão de Kolb, “o auge do desenvolvimento é a integridade. É o mais alto nível de atuação: aquele que, consciente ou inconscientemente – ou talvez automaticamente – nos esforçamos por alcançar”.

O modelo de Maslow

A hierarquia das necessidades, organizada por Abraham Maslow, na chamada pirâmide de Maslow, é um modelo bastante conhecido que sugere existirem diferentes exigências, ou seja, necessidades, em diversos níveis.

Quando um nível é satisfeito, o seguinte surge. O movimento causado pelas necessidades que nos mantêm vivos, como de água e comida, desdobra-se nas necessidades de segurança e abrigo. Daí vêm a necessidade de “pertencer” e as exigências da autoestima, que de início depende dos outros, mas depois passa a ser gerada dentro de nós. No modelo de Maslow, o estágio final é a realização.

O momento de entender as necessidades do indivíduo

Falamos que o indivíduo se desenvolve pela superação de diferentes níveis de consciência.

A cada estágio do desenvolvimento, o indivíduo apresenta determinadas necessidades, bem como utiliza diferentes adaptações ou defesas. Esse é um bom modelo para que o coach integral entenda as necessidades do indivíduo e perceba se está no caminho certo para satisfazê-las.

Houve um caso em que o coachee comentou que o coach se apressava em levá-lo à realização, quando as necessidades inferiores ainda não tinham sido atendidas. Eles se concentraram, então, em trabalhar as adaptações que impediam o progresso, levando o coachee a satisfazer suas necessidades de nível inferior: emprego estável e casa própria. Os níveis superiores podem exercer maior atração sobre o ego, mas só estão disponíveis como conseqüência natural da satisfação dos inferiores.

Como diz Wilber em Sex, Ecology and Spirituality, “primeiro as moléculas, depois as células, depois os órgãos, e só então os organismos complexos – não surgem todos ao mesmo tempo... o crescimento ocorre em estágios. Os padrões mais holísticos aparecem mais tarde, porque têm de esperar a formação das partes que vão integrar ou unificar, assim como sentenças inteiras”.

Os estágios de necessidades

Com diferentes necessidades surgindo em níveis diversos, podemos perceber que uma visão geral do desenvolvimento, inclusive de seu nível de consciência, adaptação e necessidades, permite ao coach identificar melhor o pondo onde o coachee se encontra. Com isso, pode escolher a abordagem mais adequada àquele estágio.

Os estágios de necessidades se formam sobre os anteriores, sem anulá-los. Assim como a célula precisa das moléculas para existir, o coachee deve ter suas necessidades satisfeitas, antes de passar ao nível seguinte. Ninguém vive só de autoestima.

Se em determinado estágio o coachee insistir em passar para outro superior, cabe ao coach, de maneira gentil, mas firme, estabelecer a base que lhe permitirá chegar lá no devido tempo. Quando isso acontecer, a sensação será de alívio, pois cessam também as restrições. Caso o coachee esteja em busca da iluminação, mas não tenha como pagar as contas, vai primeiro ter de resolver esta questão, para depois aproveitar a sensação de liberdade que vem da reação contra o materialismo.

Em outro caso, o coachee pode estar buscando a aprovação dos outros (uma necessidade do estágio “e se?”) e descobrir que isso o impede de progredir. A tarefa do coach é apoiar o coachee a encontrar maneiras de desenvolver-se além daquela necessidade, conforme já discutimos. É quando todas as opções falham (“já tentei de tudo”) que as transformações podem ocorrer.


Esse texto possui informações extraídas do livro "Coaching Integral: além do desenvolvimento pessoal" de Martin Shervington, editora Qualitymark, 2006