Sempre existe um espaço entre o potencial e o desempenho. E é um intervalo imenso. Mesmo nas atividades mais comuns, não importando o quão bom alguém seja, ele sempre pode melhorar. Contudo, existe algo nesse intervalo, e entender o que existe pode ajudar a criar uma ponte sobre ele. Posso lembrar-me de momentos em que, jogando tênis profissional, fiquei ansioso e distraído. Aquela voz fraca na minha mente começava a dizer coisas como: “Você não pode deixar esse perdedor ganhar, o que vão dizer no vestiário? Olhe a bola. Espero que seu saque não seja uma cortada. Só ponha abola em jogo. Não, cruze a bola. Seu idiota...”. E assim por diante.

Gallwey chamou tais pensamentos de “interferência”. A interferência normalmente se baseia em medo e dúvida. Eu acrescentaria que nada é um obstáculo maior ao desempenho máximo que a dúvida. Eu acrescentaria que nada é um obstáculo maior ao desempenho máximo que a dúvida. Então, o modelo se transforma em: Potencial menos interferência é igual a Desempenho Assim, uma das formas de aumentar o desempenho é diminuir a interferência.

Quando a interferência diminui, maior potencial fica disponível. A interferência tem várias formas. Eis uma lista parcial que pode ser familiar a você: . medo (de perder, ganhar, parecer um tolo); . falta de confiança em si; . tentar demais; . tentar atingir a perfeição; . tentar impressionar; . raiva e frustação; . tédio; . mente ocupada. Uma das formas de reduzir a interferência é prestar atenção. Quando a atenção está centrada, o player entra em um estado mental em que ele pode aprender e desempenhar ao seu máximo.

Gallwey chama esse estado mental de “concentração relaxada”. A maioria das pessoas com quem conversei teve alguma experiência com esse estado mental, também chamado de “fluxo”. Para alguns, muitas vezes, foi uma experiência profunda e tocante, enquanto estavam fazendo alguma atividade física. Um amigo meu costumava participar de corridas de motocicletas e, ocasionalmente, quando estava no seu limite absoluto, com sua atenção grudada no corredor à sua frente, ele entrava em fluxo.

Seus pensamentos e suas ações se tornavam um só, o tempo parecia desacelerar e o barulho dos motores parecia diminuir. Nesse estado, ele sentia exatamente quando o corredor à sua frente cometeria um erro mínimo e se aproveitaria dele sem hesitação. Estar em fluxo não precisa ser algo tão dramático. Pode ocorrer em atividades comuns, como escrever algo. Você se senta em frente à sua mesa e começa. Você escreve algumas coisas de que não gosta, há algo que não está certo. Você levanta e fecha a porta. E, de repente, as palavras começam a vir. Você fica concentrado na sua tarefa. Ao olhar para o relógio, percebe que uma hora já passou sem você perceber. E metade do relatório está escrito.

Da perspectiva d’O Jogo Interior, uma parte central do trabalho do gerente de linha ou do desempenho do coach é ajudar a reduzir a interferência que afeta as pessoas co as quais ele trabalha. Isso representa uma considerável mudança de foco. Tentarei dar mais vida a esse conceito central descrevendo uma demonstração que um colega deu num workshop de habilidades de coaching. É uma adaptação de um exercício utilizado por Gallwey que mostra de forma bastante clara o que acontece quando o coach está realmente comprometido com o aprendizado do player e não entra no jogo do aprendizado com instruções, conselhos ou sugestões.

É interessante como essa abordagem não se apóia no coach como um especialista no assunto em questão. Na verdade, não há nenhuma instrução ou sugestão em toda a sessão; o coach trabalha com a capacidade do indivíduo de aprender. Meu entendimento é que a capacidade de aprendizado está embrulhada no potencial do indivíduo. O aprendizado é instintivo.

Myles Downey, em Coaching Eficaz, editora CENGAGE Learning, 3ª edição, 2010.