Em seu livro Flatland, Reverend Abbott explica muito bem o movimento entre os níveis de consciência. Abbott escreveu sobre um quadrado que adormeceu e sonhou. O quadrado sonhou que tinha caído de Flatland, a terra de duas dimensões, indo parar em Lineland (Terra da Linhas), uma terra de uma só dimensão, onde tornou-se uma linha. Essa foi uma transformação, mas “em marcha à ré” – similar, para usar a metáfora de Wilber, a uma mudança do quinto andar para o quarto, o terceiro, segundo ou primeiro andar.

Em Lineland, não há quadrados, círculos nem hexágonos; apenas linhas. O pobre quadrado perdeu seus lados, e ficou desorientado. Para tornar o sonho mais complicado, não conseguia convencer o rei que governava a terra de que ele não era uma linha, mas um quadrado. Os habitantes do reino se voltaram contra ele, mas o quadrado acordou antes que fosse apanhado.

De volta a Flatand, onde sentia-se confortável, e tendo recuperado seus lados, o quadrado foi ensinar Matemática ao neto (por acaso, um hexágono). O pequeno hexágono estava estudando Álgebra em um espaço de três de comprimento por três de largura, quando perguntou se havia algo maior que três por três. O avô achou graça na ideia de existir algum lugar de maiores dimensões que a terra onde viviam, e disse ao hexágono que não se preocupasse.

Quando o pequeno hexágono foi embora, disse em voz alta: “Esse garoto é um tolo.” Mal acabou de falar, surgiu a esfera, da terceira dimensão, uma forma pouco nítida, porque em Flatand só eram visíveis duas dimensões. Na continuação da história, a esfera levou o quadrado em uma viagem à terceira dimensão. Em uma expansão de seu ser, o quadrado se transformou em cubo.

A história termina com o quadrado tão entusiasmado com sua nova consciência, que começa a pensar se haveria alguma terra além daquela, e pergunta à esfera sobre os mistérios das dimensões fora de Shpereland. A resposta da esfera é: “Isto não existe. É uma ideia inconcebível. “Em seguida, ela devolve o quadrado a Flatand, onde ele passa o resto de seus dias tentando convencer os habitantes da existência de uma terceira dimensão. Infelizmente, ninguém acredita nele.

Eis aí uma bela ilustração de mudanças para cima e para baixo, que pode ajudar a criar uma ideia do que significa transformação. Na história, a opção é aprender mais sobre o mesmo problema matemático, mas isto não é transformação. Transformação é quando o aluno muda radicalmente através do processo de aprendizagem e se desenvolve de fato. A Matemática vai da segunda à terceira dimensão. E este, seja qual for o contexto, é o objetivo do Coaching Integral – um objetivo que o diferencia de outras formas de coaching.

Em Flatland, assim como em qualquer outra terra, é difícil aceitar que exista alguma coisa além, e tal atitude deve ser evitada pelos coaches se quisermos assistir a transformações. Precisamos saber que existe algo além da atual visão e do atual nível de experiência do indivíduo. Como coaches, temos de reconhecer que Flatland faz parte do panorama. Vamos evitar falar mal de Flatland, em especial porque é lá que vive a maioria das pessoas.

Martin Shervington, em Coaching Integral: além do desenvolvimento pessoal, editora Qualitymark, 2006.