A primeira transformação em que o coach pode envolver-se é aquela do pensamento “como se” para “e se?”. Em poucas palavras, a diferença entre pensamento operacional concreto (ou do tipo “como se”?) e pensamento operacional formal (ou do tipo “e se?”) pode ser ilustrada por um teste. O teste Em três tubos de ensaio, temos líquidos claros com as etiquetas “A”, “B” e “C”, e pedimos a duas pessoas (uma no estágio “como se” e outra no estágio “e se?”) que descubram quais são os dois que, misturados, produzem uma solução turva. A pessoa “como se”, sem muitas considerações, experimenta diferentes combinações, até descobrir os dois tubos de ensaio que produzem a solução turva.

A pessoa “e se?” adota uma abordagem diferente, pensando: E se eu misturar A e B, A e C, C e A ou C e B? em outras palavras, ela prepara as hipóteses e depois testa – “e se?” Robert Kegan resume muito bem: “A pessoa operacional concreta explora os limites do mundo, mas em termos de estágio evolutivo. De um ponto de vista mais avançado, podemos dizer que é como explorar uma superfície plana, ignorando a terceira dimensão.” Quando ocorre a transformação, o indivíduo que deixa de ser operacional concreto não age mais com base em “como se”; ele passa a considerar o que poderia ser, perguntando: “ e se?” Esse raciocínio aumenta a capacidade de utilizar a teoria para produzir opções dentro de um sistema fechado.   Exemplo número 1 Em um jogo de sinuca, o pensador do tipo “e se?” geralmente estuda os melhores ângulos de entrada e saída, para que as bolas percorram a mesa, usando para isso seus conhecimentos matemáticos.

Ao contrário, o pensador do tipo “como se” vai jogando, sem utilizar qualquer teoria. Uma analogia não compreende apenas visualizar as sombras na caverna de que falou Platão, mas ir além, percebendo que algo provoca aquelas sombras. Existe um movimento em direção ao pensamento “e se?”, que começa na adolescência, mas em geral não se sustenta como nível estável de consciência. Pelo fato de o estágio “como se” orientar-se muito para as necessidades e o self, o indivíduo pouco ou nada faz para levar em conta os pontos de vista alheios.

Ao contrário, o indivíduo estável do tipo “e se?” consegue aceitar os pontos de vista do outro sem abrir mão de seus conhecimentos e necessidades. Ele pensa: “E se eu agir deste modo, como me sentirei? Como os outros se sentirão?” Esse é um pré-requisito para um relacionamento interpessoal de alta qualidade. Assim, a mudança para o pensamento “e se?” é mais abrangente, e vai além do estágio anterior. Somente se e quando o desenvolvimento para este estágio é negociado e estabilizado, podem ser apoiados os estágios de desenvolvimento posterior. Esta é, então, a primeira mudança/transformação que o coach pode ajudar o coachee a fazer.

Se o coachee estiver agindo sem muita preocupação com as consequências de seus atos, o coach pode perguntar: “O que você acha que pode acontecer se fizer isso?” Por meio dessa pergunta e de outras do mesmo tipo, o coachee começa a desenhar o mapa do território onde atua. É crucial que o coachee complete esta primeira transição, porque se não houver uma boa base, a construção do self pode não ser tão estável.

O coach não tem necessidade de apontar o nível de desenvolvimento do coachee; no entanto, a mudança do pensamento operacional concreto para o pensamento operacional formal frequentemente não se completa em todos os contextos. Embora este estágio não seja o mais importante, representa um salto absolutamente necessário para que o indivíduo se sinta à vontade dentro da cultura, levando uma vida satisfatória – sobretudo no caso da cultura ocidental.

Se o coachee não tiver feito ainda a transição, o coach pode “ampará-lo”, explorando com ele as opções em seu nível de existência. Como diz Wilber, “toda vez que você imagina um resultado diferente, toda vez que pensa em um futuro diverso da realidade atual, toda vez que sonha com o que poderia ser, está usando a consciência operacional formal”.


Martin Shervington, em Coaching Integral: além do desenvolvimento pessoal, editora Qualitymark, 2006.