Num dos finais de semana fui à livraria, como há uma livraria aqui em São Paulo com um barco Viking achei que seria uma opção interessante para levar minha filha. O barco Viking estava um pouco mudado pela presença da Peppa Pig na telinha. E lá iam as crianças subindo as escadas, andando no barco e depois no escorregador. Sobe e desce e corre e escorrega, tudo que as crianças normalmente adoram fazer.

Fui atrás dos meus exemplares, sem muito sucesso. Então resolvi dar atenção à ala infantil. Muitos livros interessantes, inteligentes e criativos como sempre. Tinha um que vinha com as notas musicais e um pequeno teclado, “mini-piano”. Rapidamente aprendi a tocar várias músicas infantis, simples, fácil, colorido e bem didático. Saí um pouco e de repente me deparo com outra mãe ensaiando seu concerto musical, depois outro pai com o mesmo livro, enfim, acho que esse brinquedo estava divertindo a criança interior de muitos adultos.

Resolvi ir ao barco para ver como estava a brincadeira, e sobe e desce e vai, até que uma cena me fez mudar o foco de atenção. Uma criança estava escorregando de barriga para baixo e curtiu, quis fazer de novo. Outra pequenina também quis imitá-la e adorou fazer diferente, tanto que fez de novo e de novo, porém, sua mãe chamou sua atenção interrompendo a diversão. Discretamente a levou em um cantinho – Ah, esses cantinhos! - e disse que ela era uma menina e que deveria descer o escorregador como todas as outras meninas estavam fazendo. Aí foi mostrar como deveria ser, mas aquela “danada” estava descendo de “barrigão” outra vez, junto com outra criança que descia da forma convencional. A filha fez que entendeu, mas ao descer fez do jeito “não menina” de fazer. A mãe ameaçou acabar com o passeio, irem todos embora. O pai observava mais distante e viu a filha escorregar “às avessas” mais de uma vez, contudo, percebeu a insatisfação da esposa e me olhou com um sorriso meio sem graça, foi delicadamente ao encontro da filha convencendo-a a sair do barco.

Educar é um exercício constante, nem sempre fácil, mas muito enriquecedor e a observação nos ajuda a pensar nossos próprios processos também. Como descemos o escorregador? Existe um manual de técnicas corretas de fazê-lo? Estamos sempre tão preocupados em nos enquadrarmos que às vezes interferimos na função de contato, na interação organismo-meio, que são os canais pelo qual vivenciamos o contato com o mundo. O que acontece com nossa alfabetização corporal quando novos jeitos de fazer são vistos como ameaça?

O
 que dizemos para o corpo fica registrado no todo, podemos concordar, discordar, confirmar, negar, engessar, flexibilizar, enfim, possibilidades infinitas, vale questionarmos para tornarmos mais congruentes com nossas necessidades de contorno, de equilíbrio. A plasticidade cerebral, a neuróbica estará comprometida se não exercitarmos a fé raciocinada. Fomos desenhados para o movimento, para a exploração das possibilidades do corpo, da mente, da vida, dos contatos. O nosso cérebro nos fala isso, fazer de um jeito diferente cria novas possibilidades sinápticas, por outro lado precisamos de disciplina, rotina e sabedoria para fazer as melhores escolhas. Aqui não existe certo ou errado, existe sempre um ajustamento criativo em busca do equilíbrio, o que pode acontecer é ajustarmos de uma forma que não nos traz o equilíbrio que necessitamos. 



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