Tenho refletido sobre o papel da interdependência e da amizade em nosso processo de desenvolvimento.
Estou me dando conta da simplicidade e da complexidade desse tema. Simples, pois a base parece ser o amor que permeia as nossas ações, a nossa reta intenção, a nossa necessidade de participar. Complexo, porque complicamos a vida, porque é complexa a nossa rede de ideias, os nossos valores, interesses, e principalmente a nossa visão da vida e do mundo, com tudo o que a ideia de mundo implica. Muitas vezes, pelo anseio de ajudar e participar, não damos o devido espaço aos demais, não permitimos que cometam os seus próprios erros, que possam crescer.
Quando falamos de amizade estamos nos referindo a um sentimento de um ser por um outro ser. Este sentimento estará tingido pelas cores dos valores, dos interesses que poderemos ter em comum com este outro ser. Tanto é assim, que num ambiente competitivo, como o profissional, dizemos que temos colegas, e não amigos, pois neste âmbito o interesse é por resultados profissionais. Mesmo quando falamos de amizade, esse sentimento ainda pode estar tingido pelo espectro da separatividade, do ser eu e do ser outro.
A interdependência pode nos ajudar a expandir este conceito de “o outro”, na medida em que nos leva a ter uma visão de conjunto, do todo.
A expansão do estado de consciência nos leva a compreender que não somos seres separados, que vivemos uma vida própria, mas sim que somos um com o todo. Com o Divino. Ao ser no todo fica evidente que não podemos tomar decisões, agir sem levar em conta os demais, como serão afetados. É importante perceber e refletir em como as nossas decisões e ações afetarão ao grupo, como afetarão o ecossistema.
O efeito borboleta já é conhecido e muito divulgado. Por que não pensamos neste efeito em nosso dia a dia? Nas coisas simples? Se não limpamos nossa casa, o efeito é que a casa estará suja, haverá proliferação de pragas, de doenças, que poderão virar epidemias e afetar e até tirar a vida de muitas pessoas. Pensemos em outros exemplos. Sigamos a possível rede de acontecimentos que poderia ser desencadeada a partir de um simples ato, o mais simples, e vejamos até aonde pode chegar.
Segundo a UNICEF, o conceito de interdependência deveria ser ensinado aos jovens:
Tradicionalmente se ensinava aos alunos a ver o mundo como um conjunto de estados cujas preocupações interferiam ocasionalmente. Mas em um mundo globalizado é indispensável entender a noção de interdependência. A compreensão desta interdependência permite aos alunos perceber o mundo em que vivemos como um sistema.
Compreender que o mundo funciona como um sistema implica:
· Entender a rede de relações deste sistema
· Apreciar o equilíbrio instável que existe entre os componentes desta rede.
· Tomar consciência que as mudanças em uma parte do sistema terão repercussões sobre o sistema inteiro.
Graças à compreensão da interdependência entre os fatores de um problema podem-se encontrar soluções duradouras. 
(UNICEF- //www.enredate.org/cas/educacion_para_el_desarrollo/interdependencia)
Aprendamos, portanto, a incluir os demais em nossa vida, a refletir sobre como nossos atos, nossos pensamentos e sentimentos interferirão nas vidas das pessoas, do planeta. Incluamos a nós mesmos no contexto da vida como vida, e não como a “minha vida”. Permitamo-nos efetivamente ser parte desse todo, expandindo nossa consciência, incluindo e incluindo-se como parte efetiva dos problemas e das soluções. Temos que deixar de ser expectadores da vida e viver. Nada é separado. Tudo é um.
No pequeno, se constrói o grande. Se, somos parte de um grupo e o todo depende da ação de cada parte, nosso atuar vai definir o clima do grupo. Se nosso atuar é egoísta, se não pensamos no todo, se tomamos decisões deslocadas em relação ao ideal e aos valores cultivados pelo grupo, iremos gerar desarmonia e conflitos. Se nos integramos ao todo, de acordo com os valores e regras estabelecidas, geraremos harmonia, crescimento e integração. Integrar e integrar-se.
A interdependência será neste caso a dependência nossa em relação ao grupo e do grupo em relação a nós. Aí entra o sentimento do amor e da amizade e do trabalho em equipe.
O diálogo parece ser a tônica dessa relação. Já disseram que o inferno está cheio de boas intenções. Para nós, sempre temos boas intenções, queremos o melhor para todos. Como então discernir o que é o melhor? O que devemos fazer? De novo, parece-me que a resposta está em nós mesmos. Assim é importante meditar e refletir com clareza sobre nossas intenções, mesmo àquelas que à primeira vista nos chega como da maior pureza de nosso coração. Mesmo quando pensamos que estamos ajudando. Em resumo, desconfiar de nós mesmos, sempre. Dialogar, colocar à consideração dos demais e também de elementos criados e pensados para nos ajudar, como leis, estatutos, regulamentos. Também, parece condicional que aprendamos a observar a reação do entorno ao nosso atuar. Validar a resposta do entorno.
Para atuar bem, parece ser indispensável um conhecimento profundo do sistema no qual estamos atuando. As pessoas, as regras, o ambiente, o planeta. Incluir-se nesse sistema em forma completa. Desenvolver nossa capacidade de cooperação, de trabalhar em conjunto, em equipe, com uma atitude de respeito, reverência ao grupo, ao meio, às pessoas, ao todo, de forma positiva. Reconhecer em cada ser o melhor que pode dar, para harmonizar e valorizar o ambiente. Este conhecimento se dará pela observação, pelo estudo do meio, de si mesmo, e pelo desenvolvimento da atitude adequada, de acordo com o objetivo comum de construir o melhor para todos.
Pensamos a Amizade com um sentimento além de interesses, de amiguismos, de favorecimentos ou preferências. Num grupo é normal que haja afinidades. Devemos trabalhar em nós mesmos para unir e não para separar. Devemos amar. Amar é um verbo. Pressupõe uma ação. Deveremos agir no sentido de amar a todos, sem preferências. A amizade, desde esse prisma, passa por uma sinceridade completa e absoluta, de todas as partes. Desde nós quando desejamos algo, até por aqueles que nos devem dizer sim ou dizer não.
A amizade deverá ser pautada então, pela força do amor e por uma completa e absoluta sinceridade.
Força do amor, que se traduziria em nosso atuar cotidiano como expressão do melhor de nós mesmos, de nossa força de querer ser e fazer o melhor. O melhor para todos e não somente para alguns.
Sinceridade nas intenções, nas palavras e nas decisões e não numa busca de agradar, mas de ser. A transparência parece-me ser o foco desta questão. Tratar todos os temas de forma clara, aberta, procurando possíveis causas e soluções. Se “queremos agradar”, trabalhamos no nível da personalidade e não no do ser.
Quando desenvolvemos a amizade e a atitude de interdependência, a nossa relação com os demais passa ser uma relação de cooperação positiva e transparente. Buscaremos compreender e compartilhar os valores de forma a construir objetivos comuns, de pleno desenvolvimento. Aprenderemos a solucionar nossos conflitos de forma serena, transparente, aberta e apoiada numa sincera vontade de equanimidade. Buscaremos compreender o sistema no qual estamos inseridos, seus objetivos e seus meios e trabalharemos de acordo com a necessidade do todo. Não seremos entraves, mas facilitadores para a construção de novas possibilidades para todos.
A interdependência vivida em forma efetiva representa um importante pilar para as relações “harmonicamente sustentáveis”, pois encerra em si o princípio do respeito mutuo.
Em nossa vida diária, na relação familiar, no ambiente de trabalho, os inúmeros papéis que nos toca viver, nos colocam em algum momento em posição de “superior” ou de autoridade em relação a alguém. Se não tivermos consciência de nosso compromisso na construção de relações harmônicas, acabaremos assumindo posições autoritárias, que ainda que possam ser úteis para o cumprimento de nossa tarefa, também poderão ser danosas para as pessoas com as quais interagimos. Esta dualidade pode ser solucionada se tomarmos consciência de que uma relação é sempre uma via de mão dupla e que a harmonia depende de que cada um respeite a si mesmo e aos demais.
Nas verdadeiras relações há sempre uma interdependência. Ser conscientes disto nos leva a atuar respeitando o espaço do outro.



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