A arte do Coaching: estar e ser...presente “A presença contém uma eficácia,
uma plenitude que excede todas as tentativas do querer:
vai sempre além de nossa expectativa.
É como uma graça
que aproxima os seres uns dos outros em sua essência
e não mais em suas modalidades apenas.”
Louis Lavelle



Acredito que não há no mundo ser humano que já não tenha se sentido incomodado até mesmo com a presença do melhor amigo. Isso acontece porque o ser humano desconfia de qualquer presença, de qualquer outro ‘eu’ que não seja o seu próprio.

Louis Lavelle diz que: “o eu naturalmente aspira a reinar sobre o mundo. Procurará, pois, expulsar do mundo qualquer outro eu, ou terá de recear ser o expulso. [...] Essa existência que de súbito encontro em minha presença é tão diferente da de um objeto, que, ante esse olhar, sou eu que me sinto transformado em objeto, e talvez mesmo em alguma caça.” * Nosso instinto é o de evitar qualquer presença diferente da nossa própria, tememos outra presença, e precisamos nos proteger. Também a evitamos porque desejamos ser únicos, distintos, exclusivos.

Entretanto, ao mesmo tempo que nós seres humanos tememos a presença de outros, também percebemos que é esta presença de um outro semelhante que nos proporciona uma consciência do nosso próprio eu. E eis que, quando nós seres humanos nos rendemos a esta relação, acabamos vivendo “o milagre de uma consciência que não é a [nossa], mas que a reflete, que prolonga o […] ser, [...] e faz começar [um] diálogo íntimo, que só pode terminar em um diálogo com o universo inteiro.” *

Sabendo que nós seres humanos tememos, em primeira instância, a relação com outros semelhantes e ao mesmo tempo sentimos necessidade desta relação, é preciso que o coach fique bastante atento e busque criar um ambiente no qual o coachee possa viver profundamente o “conhece-te a ti mesmo” socrático. Afinal, só nos é possível conhecer a nós mesmos a partir da relação com um outro semelhante. Sendo assim, o coach deve estar de tal modo presente para o coachee, fazendo com que este possa estabelecer uma relação consigo mesmo e consiga assim conhecer-se. Mas, como se fazer presente desta forma?

Em suma, a presença se estabelece mais profundamente a partir de um silêncio bem vivido. “A atitude de silenciar, ainda que pareça depender das palavras, ou da ausência delas, depende antes de um modo de estar diante das situações. Em cada ação não são tanto as palavras, mas a presença pura e silenciosa que possibilita uma relação à qual não se necessita solicitar atenção ou fazer perguntas, ou, ainda, respondê-las. A pessoa silenciosa não necessita ser vista ou notada para saber que cumpriu seu papel com prudência. O silêncio não necessita ser reconhecido como uma virtude, antes, precisa ser vivenciado com tal. É ele que permite ao terapeuta estar presente para escutar.” **

A presença silenciosa e plena de escuta, faz com que o coachee possa sair de si mesmo e mergulhar na magnitude de uma existência universal. “Parece, portanto, necessário existirmos para o próximo a fim de podermos existir para nós mesmos.” * E o mais interessante é que na relação coach-coachee, o coach não só revela a existência do coachee a ele mesmo, mas também descobre sua própria existência nesta relação.

E, como citado acima, a presença se estabelece mais profundamente a partir do silêncio, e este permite uma presença na qual não há mais necessidade de dizer muitas coisas, basta estar junto, basta caminhar lado a lado. E, viver esta presença é também abrir portas para a presença mais profunda, aquela presença que se dá entre os espíritos, uma presença na qual basta a simples lembrança para preencher e ordenar a si mesmo. É o processo de coaching acontecendo dia a dia, mesmo sem a presença física do coach. É uma presença que ressoa. Ou seja, depois de um primeiro contato (coach-coachee), depois de estabelecer uma relação através da percepção e da presença física, não será mais necessário estar presente fisicamente para que o processo continue, a simples imagem ressoará e dará suporte à relação.

Quando agimos com simplicidade, quando respeitamos nossa própria essência e a essência de nosso coachee, quando entendemos a relação que existe entre os seres humanos em suas múltiplas camadas, percebemos que não é mais necessário uma presença sensível (física), a presença espiritual basta para que o processo continue acontecendo. Mas, para chegar a este grau de presença é preciso por parte do coach um auto conhecimento e silêncio profundos.

“As relações com o próximo são da mais delicada essência, porque põem em jogo não só as palavras, as ações, porém ainda as diferentes espécies de silêncio e o exercício mútuo de nossas mais misteriosas potências. [...] Conversação verdadeira só existe quando nos podemos entender por meias palavras: deve sempre ficar nos limites da intimidade e do silêncio.” *


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

* LAVELLE, Louis. Em face do outro. Tradução das Monjas Beneditinas. São Paulo: Paulinas, 1965.

** HOMANN, Danuta. Um Musicoterapeuta entre sapos e melancias: o mistério de um encontro inevitável. Curitiba: FAP/PR, 2007.



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