Quando você escolheu sua profissão, recebeu sugestões? Já sugeriu alguma para alguém? Será que isso é saudável? 

Bom, antes de entender, veja essa história:

“Eu queria ser professora por volta dos 9 ou 10 anos. Eu queria ajudar as pessoas a conseguirem o que antes não conseguiam. Lembro-me de um dia em que minha mãe me chamou, apontou para a TV onde se via um grupo imenso de professores em greve manifestando nas ruas. E ela me disse: ‘É isso que você quer para você? ’ Claro que não era. Vale ressaltar que venho de uma família simples, não passamos necessidades, mas muitas restrições. Eu desejava que na minha vida adulta estas mesmas restrições não existissem, e minha mãe queria me proteger delas. E então, aquela situação entre eu, a TV e minha mãe, que deve ter durado 10 segundos no máximo, foi tão contundente que, de certa forma, fez desaparecer da minha mente a possibilidade de ser professora por muito tempo. Quis ser decoradora, arquiteta, engenheira química, biomédica. E prestei vestibular para medicina veterinária. Hoje agradeço não ter sido aprovada, passo mal quando vejo sangue. Fui fazer teatro por sugestão da minha mãe, para perder a timidez (sim, já fui muito tímida) mas acabei descobrindo que tinha talento e aptidões para atuar. E sabe o que aconteceu? Uma vontade imensa de multiplicar aquilo tudo. Minha essência voltando. Tornei-me professora de teatro. Queria ver outras pessoas se desenvolvendo através da arte do teatro. Depois, instrutora de treinamentos comportamentais. Fui estudar mais o comportamento humano e me tornei então palestrante e coach. E hoje? Ajudo as pessoas a conseguirem o que não conseguiam antes. Minha essência aí! ”

Começo com esta história, verdadeira e autobiográfica, para chamar a atenção sobre como é possível influenciar a decisão profissional de nossos filhos, netos, sobrinhos, alunos e amigos. Sem querer podemos incutir uma informação no inconsciente de quem ouve e que poderá ser determinante na hora da escolha profissional. 

Você escolheu sua profissão sozinho ou foi influenciado por algum adulto?

Muita gente responde que foi por escolha própria, mas a influência pode ser indireta e ter ocupado sua mente inconscientemente. Pode ter sido um comentário de desagrado sobre algum tipo de profissional, uma crítica em relação a alguma classe de trabalhadores, uma brincadeira sobre algum cargo, uma cara feia diante de algo que você fez ou falou, ou até um desestímulo proveniente de proteção, como ocorreu comigo. 

Essa influência é bem difícil de controlar, mas podemos começar a ter um pouco mais de cuidado, pelo menos nas conversas sobre o assunto. Isso porque os jovens cérebros das crianças e adolescentes possuem regiões imaturas, com desenvolvimento ainda em andamento. E sua função é absorver tudo o que lhe for possível. Então, mesmo que eles não queiram, adolescentes são suscetíveis a um ou mais elementos do ambiente.

Pense em como pode ser angustiante perceber que fez a escolha errada quando já se cursou 2 ou 3 anos de faculdade. Isso acontece, pois é por volta dos 20 anos que a identidade se forma e percebe-se o grande erro. Às vezes o indivíduo compreende por volta dos 30 anos, quando forma o senso de contribuição e propósito. 

Imagine o conflito interno do profissional que se vê infeliz, porém com responsabilidades financeiras. Quando atendo clientes infelizes profissionalmente, em 70% dos casos, existe influência externa, mesmo que indireta.

Na história que relatei acima, percebam que em mim existia uma visão poética sobre ser professora e um propósito por traz disso. Já para minha mãe, a visão era a do professor de ensino público, que ganha menos do que o merecido e enfrenta dificuldade imensas. E como mãe, queria me proteger daquilo que ela tinha como realidade. 

O padrão mental da minha mãe acerca da educação, chegou até mim e influenciou minha inscrição no vestibular, sete anos depois do ocorrido. A culpa não foi dela, mas a forma como absorvi aquela perguntinha simples gerou o resultado que mencionei.

Uma profissão é algo muito individual, e envolve o que a pessoa gosta, suas habilidades naturais e muitas outras variantes. Temos nossa interpretação pessoal acerca das profissões, conforme nosso gosto, visão de mundo, aptidões, nossas experiências e perfil comportamental. 

Veja algumas dicas para tornar a influência assertiva nos adolescentes, já que eles têm pouca referência e muitas dúvidas:

1. Faça perguntas como por exemplo, do que ele gosta; o que o faz bem; como ele se imagina daqui 5, 10 ou 20 anos; o que faz seu coração vibrar; o que ele faria até de graça; além de dinheiro, o que também é importante para ele; se as recompensas da profissão que pretende escolher atendem em quais aspectos. 

São perguntas poderosas que ajudarão o adolescente a trazer para o consciente possibilidades genéricas, e não induções diretas recheadas de interpretação própria. Com essas possibilidades, ele encontrará certamente o que se encaixa ou não.

2. Mostre ao adolescente suas habilidades e aptidões naturais (tanto comportamentais, como mentais e físicas). Diga, por exemplo, o quanto ele é bom em se relacionar com pessoas, em resolver impasses, em criar histórias, em ensinar, em ter ideias de negócio, em desenhar, em esculpir, em ouvir, em falar em público. Diga o quanto ele tem paciência, o quanto é organizado, criativo, divertido. Estes foram apenas exemplos, seja específico e verdadeiro, ajudando-o a lembrar de fatos que comprove essas habilidades. Aponte suas inúmeras qualidades, pois elas serão essenciais no mundo profissional e motivarão o adolescente nesse momento tão difícil.

3. Nunca diga de forma genérica. Mais uma vez, procure apontar o que o jovem tem de bom em relação a uma possível profissão. Fale de uma forma que ele compreenda, por exemplo, se ele disser que pensa em ser jogador de futebol, sua resposta poderá ser que ele precisa escolher aquilo que o faz feliz. Pode ser que a influência não seja tão efetiva, então procure com outras palavras uma resposta mais elaborada, como por exemplo, que o jovem já tem agilidade e com bastante treino virará um craque. Nesse ponto, questione se aquilo o fará feliz e o que ele pode fazer para colocar esse sonho em prática.

Além do óbvio reforço emocional e do estímulo à ação, temos outro ponto interessante: elogiamos uma habilidade. Mesmo que ele desista de ser jogador de futebol, ele terá a certeza de que possui a agilidade como uma característica.



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