Ultimamente temos visto algumas pessoas públicas, que vivem de compartilhar e vender conteúdo, com suas experiências e currículos questionados. Em qualquer caso, as credenciais colocadas em um currículo trazem, ou não, autoridade em determinado assunto, e exagerar qualificações não é incomum, dependendo do tipo de profissional. Principalmente quando não compromete o resultado do trabalho.

Porém, para profissionais anônimos, esse exagero pode ser benéfico? Podemos usar desta “estratégia” de autovalorização também em nossos currículos para impressionar um selecionador? O quanto isso é ético, ou sequer importante? Ou o quanto isso é verificado?

EXPERIÊNCIA

Quando falamos de experiências profissionais, podemos verificar os empregos com registro em uma carteira de trabalho. A menos que você tenha vários parentes ou amigos com empresas dispostos a te registrar “de mentira”, sem que tenha realmente trabalhado para eles, será muito difícil que sua carteira minta por você.

Trabalhos autônomos, freelancers ou temporários podem ser comprovados, às vezes, através de contrato ou carta da empresa ou pessoa para quem prestou o serviço. Ainda assim, isso pode ser forjado. Ou mesmo pode não existir. Muitos profissionais prestam serviços informais e não têm contratos ou algo que comprove. Então, se o profissional quiser mentir que teve uma experiência que não teve, pode usar deste artificio.

FORMAÇÃO

Não dá pra mentir nesta categoria se você disser que é formado. A maioria das empresas pede uma cópia do diploma. Se estiver cursando, talvez peçam um comprovante de matrícula, mas é mais raro. Caso queira mentir sobre uma formação, escolha cursos livres. Nenhum empregador costuma pedir esses certificados, a menos que seja condição imperativa para a vaga (como algumas vagas de TI exigem certificados da Microsoft, por exemplo).

DADOS PESSOAIS

Você pode omitir a idade, mas não é possível mentir numa entrevista.

Você pode mentir sobre o emprego de seus familiares e cônjuge, se isso for perguntado, pois não há verificação desse tipo de informação.

Você não pode mentir sobre filhos, principalmente em uma vaga efetiva e com registro, pois há implicações de imposto de renda, seguro saúde, entre outras.

IDIOMAS

Você pode mentir que tem espanhol intermediário, ou que consegue fazer leitura. Por achar que é uma língua similar ao português, muitas pessoas colocam isso no CV sem nunca terem feito uma aula sequer, ou viagem, ou tido qualquer contato mais próximo. Se tiver prova, você pode se dar mal.

O inglês já complica. Se colocar básico, ainda que não tenha nada, o selecionador não vai exigir nenhuma demonstração. No intermediário ou técnico, dependendo do cargo, pode haver um teste escrito. Se colocar que é fluente e não for, passará vergonha e nunca mais será chamado por esta empresa, nem para vagas que não exigirem o idioma.

 

QUAL A INTENÇÃO?

Mentiras em um CV pode ser uma manobra muito arriscada. Se você for contratado por causa de uma mentira que contou ou escreveu, isso pode se complicar muito no seu dia a dia. Primeiro porque vai trabalhar com algo relacionado a este fator, e se realmente não souber fazer a tarefa, logo será desmascarado. Segundo porque é muito difícil manter uma mentira entre colegas de trabalho, convivendo e se aproximando de pessoas cotidianamente.

Já vi casos em que a mentira foi descoberta em um comentário com uma colega, outros em que o gestor pediu que fizesse uma alteração em um sistema, outros que vieram à tona por postagens no Facebook. Na era digital, é tudo muito mais complicado, porque se desconfiarem de você, muitas coisas podem ser pesquisadas imediatamente.

Isso quando o selecionador ou o gestor já não pegam a mentira na entrevista. Quando se investiga um fato do CV, principalmente sobre atividades anteriores, é perceptível, na maioria das vezes, quando a pessoa está dizendo a verdade. E quanto mais técnico o cargo, mais evidente. Nestes casos de entrevista por competências, até quem só exagerou uma verdade acaba sendo pego.

O importante é pensar muito sobre quais as vantagens ou necessidades de mentir em um CV. Não quero ser somente politicamente correta e dizer que não pode. Poder não pode, é um documento que relata sua vida profissional, e nele devem conter fatos verídicos e na proporção que ocorreram. A questão é que muita gente mente ou aumenta seus atributos para conseguir se destacar em uma vaga. Se ninguém descobrir, deu certo, ok. Já vi pessoas que mentiram sobre atividades que não realizaram em determinada empresa, mas que sabiam executar por outras experiências, e preferiram, por questões curriculares (tiveram mais tempo de casa na tal empresa, por exemplo), mentir. E nunca foram descobertas, porque tinham as competências, e podiam ser testadas à vontade.

Não vou defender currículos exagerados ou mentirosos, mas se a pessoa acha que há necessidade de mentir em algo, que seja algo muito difícil de vir à tona, ou que você possa provar sua competência naquele quesito, apesar do “aumento” do fato no papel.

Já passei por isso como selecionadora. Não tem nada pior para um candidato, e desconfortável para um entrevistador, do que ser descoberto em uma mentira ou um exagero no CV. O mal-estar da situação e o constrangimento não valem a vantagem sobre outros candidatos que se tenta causar, e que nem sempre é significativa. Na dúvida, fale e escreva a verdade. Não tem como errar, se confundir ou cair em contradição. Deixa sua postura mais confiável e sua expressão facial mais relaxada.