Apesar de ser possível ao indivíduo estar ciente de si mesmo e das coisas que acontecem ao seu redor, no estado de adormecimento, sua percepção, registro e incorporação das informações e estímulos que chegam ou que surgem dentro dele é muito limitada. Como consequência, esse estado apresenta algumas características. Uma delas é que a capacidade de observação é muito limitada, uma vez que é necessário que haja um mínimo de concentração, atenção e permanência, e nada disso é possível num estado de distração ou devaneio. Por isso, há um registro muito pobre tanto do que acontece ao redor quanto dentro de si mesmo.

A falta de observação em relação ao que ocorre ao redor de si mesmo tem consequências óbvias – é como se a vida pudesse ser aproveitada apenas parcialmente. As oportunidades nem sempre são aproveitadas, o aprendizado é menor do que poderia ser, e tudo se passa como se a pessoa não fosse capaz de mergulhar de fato dentro da vida e tirar dos acontecimentos todo o conhecimento e vivência que são intrínsecos a eles. Da mesma forma, quando a pessoa não observa a si mesmo ela apresenta uma dificuldade maior em conhecer-se de fato. As pessoas acabam não percebendo, por exemplo, o quanto elas reagem de forma condicionada pelos traços da personalidade e o quanto as emoções e pensamentos muitas vezes são repetitivos e não conduzem a lugar nenhum.

É muito difícil controla-los ou mesmo, conecta-los ao momento presente. É comum, muitas vezes, viver-se de pensamentos e emoções que se originaram em situações passadas, ou que são projetados no futuro, e que se transformam em hábitos que colorem a realidade com seus próprios tons. Muito pouco de original e novo pode ser experimentado nesses casos. À medida que esse estado se impõe e torna-se o único estado vivido ao longo da vida, a pessoa passa a viver numa realidade que é muito particular, ou seja, a visão de mundo, as perspectivas e pontos de vista se tornam por demais pessoais. Muitas vezes, isso tem como consequência uma quase desconexão do indivíduo com a realidade em si.

A visão que a pessoa tem do mundo torna-se muito estreita e enviesada pelos próprios conteúdos pessoais - muito pouco pode ser aproveitado ou saboreado em termos de novas experiências e aprendizados. Outro agravante é que o adormecimento é caracterizado pela perda constante da sensação de ser ou identidade. As pessoas em geral sentem que apresentam uma identidade básica, constituída por uma série de características, qualidades e visões de mundo que lhe conferem uma individualidade.

No entanto essa identidade está geralmente, associada aos papéis que são exercidos de forma mais ou menos acidental ao longo da vida. Por exemplo, uma pessoa que na vida adulta atinge certa estabilidade - constitui uma família, desenvolve um empreendimento ou assume alguma profissão, e que apresenta certas tendências particulares tais como, gostar de esportes ou de música – acaba definindo a si mesma, a partir desses elementos. Ela sente como se ela fosse os papéis que ela exerce. Ou seja, ela sente que “é” o empresário, o provedor da família, o músico, o esportista e assim por diante, dependendo da circunstância com a qual ela se envolve ao longo do dia. Isso embasa sua autoimagem, uma vaga sensação de identidade que é fundamentada nos conteúdos da personalidade e do ego e que acaba por representar, de forma distorcida, o que a pessoa acredita ser e não a dimensão real de si mesmo. No entanto, muitas vezes, não há uma identidade central, uma sensação nuclear de ser que independe das atividades ou papéis exercidos. Por lhes faltar essa sensação nuclear de eu ou identidade, as pessoas às vezes têm dificuldade de sentir essa diferença entre o que elas de fato são e os rótulos com os quais elas definem quem elas acham que são.

Portanto, o que está sendo definido aqui como identidade tem relação com essa sensação nuclear e fundamental de ser, que apresenta uma continuidade ao longo do tempo, e permanece presente ao mesmo tempo em que os papéis são exercidos e as atividades rotineiras são cumpridas. É fundamental perceber que uma coisa não exclui a outra. Não se espera que essa sensação nuclear de ser impeça as atividades do dia a dia – ao contrário, ela deverá trazer uma nova perspectiva para a vida e principalmente, será sempre a pedra angular daquilo que cada um sente ser. Afinal, é essa sensação de ser que deve conferir sentido aos papéis e a própria e vida e não o contrario. É dentro desse contexto que surge o conceito de Identificação que foi introduzido acima.

Na Identificação, ao experimentar as coisas, a sensação de ser ou a identidade se perde. A pessoa se identifica com o que está acontecendo de tal forma e em tal intensidade que sua sensação central de ser desaparece. Ela não é capaz de sentir a si mesmo ao mesmo tempo em que exerce a atividade em questão. Essa sensação primeira de ser desaparece, e ela se envolve completamente com o que está acontecendo. E essa identificação pode acontecer tanto frente aos eventos externos quanto a conteúdos internos. Por isso, no estado de adormecimento não há uma apreciação da vida e uma relação consciente com os eventos e consigo mesmo, pelo contrario, existe apenas reação condicionada. Por exemplo, um evento qualquer que deflagra uma emoção muito forte que acontece em um determinado momento do dia pode manter a pessoa presa a ele por um longo período de tempo.

Ao longo do dia, ela revive muitas vezes o que aconteceu através de diálogos mentais ou padrões emocionais, e se mistura de tal forma com o acontecimento que sua sensação de ser desaparece. Nessa situação é como se a pessoa fosse as suas próprias reações diante do evento, ou seja, ela não é capaz de perceber que aquilo aconteceu a ela num determinado momento e que passou. Ao contrário, isso tudo se transforma na totalidade daquilo que a pessoa é – ela não é capaz de se desassociar da emoção ou do acontecimento em si. É como se nos momentos de identificação mais extremos, a pessoa deixasse de ser ou de existir porque sua sensação de ser ou existir se perde. Tudo o que sobra de si mesmo é a identificação com o evento e as reações internas decorrentes. A sensação de que se é algo dissociado disso, que experimentou essa ocorrência, mas que existe e permanece existindo apesar dela, desaparece. E assim, ela sequer é capaz de perceber que a própria impressão dela frente este evento é resultado de um processamento mecânico, tingido com aspectos emocionais e perspectivas intelectuais que não possuem relação com a realidade. Porém, é importante entender que a Identificação apresenta várias vantagens e não deveria consistir em um problema em si.

A Identificação faz parte da natureza da consciência humana e ela é que permite o aprendizado e o desenvolvimento pleno da individualidade. O fato de ser possível se envolver com uma demanda real no sentido de resolve-la, ou de aprender algo a partir dela, obviamente consiste numa capacidade fundamental do ser humano. O problema está na perda dessa sensação nuclear de ser ou da identidade.

De certa forma, é possível considerar que, na verdade, a pessoa deveria identificar-se justamente com essa sensação de ser, e então viver o dia a dia a partir dessa perspectiva. Cada vivência deveria ter como base esse núcleo de identidade – cada evento ou situação não deveria anular essa sensação de identidade. Ela deve permanecer o ponto de perspectiva através do qual se relaciona com a vida e isso define seu aprendizado, crescimento e desenvolvimento. Ou seja, a essa identidade central deve ser conferida a liberdade de saborear e mergulhar, de fato, dentro das perspectivas da vida. Ela deve ser a base da sensação de ser, e não a autoimagem e os papéis que a personalidade desenvolveu ao longo de seu processo de crescimento.

Outro problema a ser considerado acerca da Identificação é que, geralmente, ela é totalmente desnecessária – ela acontece diante de elementos ilusórios, que nascem dos julgamentos exagerados que são feitos frente às diversas situações do dia e dia e mantêm o indivíduo aprisionado inutilmente, de forma descontrolada, em padrões muito estreitos. Com o tempo, as pessoas nessas situações acabam perdendo a dimensão de quem elas são, e quais são suas reais necessidades e funções diante da vida. Por isso, resgatar essa sensação de ser ou uma identidade permanente, que é mantida como um pano de fundo diante dos acontecimentos diários torna-se fundamental para restabelecer o equilíbrio do indivíduo dentro da realidade.

Resumindo, o estado de adormecimento acarreta algumas consequências. Por um lado, uma falta de capacidade de relacionar-se com a realidade e consigo mesmo de forma mais eficiente e objetiva. Por outro, ele induz à Identificação exacerbada, onde se perde com frequência, a identidade que confere ao indivíduo uma sensação de ser mais permanente e sólida. Somente com o restabelecimento de uma nova sensação de ser o individuo poderá se libertar de padrões emocionais e mentais limitados. Consequentemente poderá ser ampliada sua capacidade de percepção da realidade e de si mesmo, possibilitando a ele relacionar-se com os elementos do dia a dia de forma mais saudável.



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