A próxima transformação em que o Coaching Integral se concentra é no que Robert Kegan chamou de “self-authoring” (Piaget chamou de pensamento operacional formal completo), ou pensamento “e se? completo”. Podemos definir esta fase inicial do desenvolvimento como a materialização do mundo interior de ideias, sentimentos e emoções. O indivíduo deixa de ser dominado pelas emoções, para ser dono delas, superando a instabilidade emocional.

Carol Gilligan disse que parece haver “o desejo de ser incluído, de fazer parte, de estar junto, ser amparado, recebido, acompanhado” e “desejo de ser independente e autônomo, de experimentar a própria singularidade, de escolher a orientação a seguir, de viver a integridade individual”. No estágio “e se?”, porém, o indivíduo tem dificuldade em conhecer a própria mente e seguir os próprios sonhos, independentemente do que se espera vê-lo cumprir.

Se o pensamento “e se?” é pré-requisito para a vida moderna, o pensamento “e se? completo” vem surgindo como um nível de consciência seriamente desejável. No estágio “e se? completo”, o mundo interior do indivíduo é visto como objeto ou, em outras palavras, ele mantém certo distanciamento de idéias e sentimentos.

A dependência de relacionamentos problemáticos ou do grupo de colegas, que havia no estágio “e se?”, foi superada, embora sejam situações ainda importantes. Este é um estágio de autonomia ou “independência psicológica”, o que não significa isolamento. Como diz Kegan, “decidir por mim mesmo” não é o mesmo que “decidir a meu favor”.

No estágio “e se? completo”, há mudança de assumir um papel “na profissão, ou como pai ou mãe), chegando a um fim natural, para assumir a autoria e procurar alcançar um fim. Surge aí um pensador independente, capaz de refletir sobre seu papel na sociedade e se ver como alguém que é mais que a soma dos papéis exercidos.

O indivíduo se desenvolveu, atravessando e superando o nível de consciência em que assume papeis e, com um novo self, assume outra perspectiva como organizador – um coordenador, para quem os conflitos deixaram de ser algo distante, mas ele os traz para dentro de si. Este é o terreno da consciência reflexiva – ser capaz de entender o funcionamento da própria mente, sabendo que, com ela, muitos conflitos podem ser resolvidos.

O Coach Integral ajuda a estabilizar a mudança para este estágio, levando o indivíduo a decidir o que deseja alcançar por si mesmo, ou seja, como pretende realizar seus sonhos, sem deixar de lado os relacionamentos, importantíssimos como meio de definição do self. Também é papel do Coach Integral estimular o coachee a refletir sobre seus sentimentos e opiniões acerca de certos assuntos, chegando à suas próprias conclusões – ou, pelo menos, a pensar antes de voltar a conversar com o coach, que evitará o que espera dele. O coach pode ficar muito surpreso como que vai descobrir!  

De “e se? completo” a “e, e se?”

Alcançado o estágio de pensamento “e se? completo”, desde que o coachee esteja pronto, o Coach Integral pode conduzir seu desenvolvimento ainda além. Surge então o pensamento operacional pós-formal, ou “e se?”, revelando uma capacidade cognitiva para contextualização cruzada. É então que o indivíduo deixa de assumir diferentes papéis na vida, mas leva “o tema de sua vida”, sua essência, para diferentes contextos. É o despertar do pensamento dialético (ou, como diz Wilber, a lógica da visão). Essa é uma situação perfeitamente natural, possível a todos nós, e, como afirma Wilber, nem precisamos dominar os primeiros estágios; basta estabilizá-los. Vou explicar um pouco melhor este estágio.

O pensamento operacional formal, ou seja, “e se?”, é um estágio de resolução de problemas, mas uma das situações em que pode falhar – e falha – é quando o indivíduo precisa lidar com um alto grau de contradição. Para usar um exemplo de Kaisa Puhakka, se um físico observar a realidade física, vai encontrar indícios de que se trata de uma “onda” e, ao mesmo tempo, uma “partícula”.

Esta contradição não pode ser resolvida por “e se?” (ou “e se? completo”, que é mais ou menos o mesmo, porém mais amadurecido). Em vez disso, o físico vai além, da base e observa a teoria que leva ao resultado “onda” ou “partícula”. Desse modo, as contradições ficam na mente, e o processo é visto como maneira de unificar os opostos. Isto é pensamento dialético, ou “e, e se?”

No pensamento operacional formal (e se?), a identidade do objeto deve ser estabelecida, para ser trabalhada no devido tempo (o sistema é fechado – as variáveis são conhecidas). No estágio “e, e se?”, porém, as variáveis são conhecidas). No estágio “e, e se?, porém, as variáveis não são consideradas estabelecidas, mas dentro de um espaço que lhes permite ser como são. Este estágio “possui não somente uma nova capacidade cognitiva (e, e se?); envolve também um novo senso de identidade, com novos desejos, novos impulsos, novas opiniões”. Como afirma Wilber, este é o estágio da integração.

Seria razoável esperar que, em seu decorrer, o Coach Integral consiga estabelecer objetivos com o coachee. Isto é autorrealização, segundo os termos de Maslow.

Martin Shervington, em Coaching Integral: além do desenvolvimento pessoal, editora Qualitymark, 2006.