E por quê não dizer, que façam o que queremos. Sim, a hipocrisia ou a falsa modéstia podem nos podar deste pensamento, mas no fundo o que qualquer funcionário quer é que o chefe o obedeça de certa forma. Sabemos que alguns chefes o fazem, escolhem um favorito e acabam fazendo conforme seus conselhos. São melhores por causa disso? A equipe está feliz? Geralmente não, porque o favoritismo fomenta a desunião.

Então, depois de trabalhar arduamente, conquistar confiança de pares e superiores, conhecer do seu ramo e da sua área, você ganha a promoção tão sonhada e vira chefe! E agora? Vai olhar para seus livros de incentivo, vai reler as teorias sobre liderança, vai fazer um curso, vai reler O Monge e o Executivo? Ou vai seguir, sob o amparo e supervisão, agora ferrenha, seu diretor, e tudo o que ele lhe orientar? Vai se indispor com quem? Com a equipe ou com o diretor? Vai ficar pensando nas mudanças que poderá fazer, que gostaria de fazer quando não era chefe? Como tomar decisões, como liderar uma equipe?

Todos perguntamos a nós mesmos e aos colegas e amigos como é possível aguentar um líder ruim. Nunca perguntamos a um líder como é aguentar uma equipe ruim, ou uma diretoria ruim. Nunca quisemos saber o quanto é difícil estar entre a equipe e os donos ou CEOs da empresa, por exemplo. Nunca nos perguntamos sequer se temos capacidade e conhecimento técnico para assumir o cargo, ainda que isso seja o mais fácil de conseguir.

De forma alguma quero defender as más chefias, que são as culpadas por talvez todos os problemas corporativos e sociais, até. A questão é que, pelo motivo que for, estar em cargo de liderança não é tão confortável quanto parece.

O líder, pra começar, é exposto. Ele é o famoso do departamento. Observado o tempo todo. Se for bom, é imitado, se for ruim é criticado. Se for justo, é criticado e imitado. Se for admirado, pode ditar a tendência de comportamento e influenciar, sem querer, até no jeito das pessoas se vestirem. Exatamente. Começam a comprar nas mesmas lojas, usar as mesmas cores, sentar do mesmo jeito. Mesmo parecendo um pouco de loucura, estes sinais são indícios de que o líder está no caminho certo, pois está cativando. Queremos ser como nossos heróis, pegamos um pouco de cada um deles. Inclusive de um chefe que admiramos.

Independentemente, porém, da popularidade do líder, ele sempre estará na berlinda. Se tiver facebook será acessado, analisado, suas postagens serão lidas e traduzidas da forma que o leitor quiser. As fotos serão todas interpretadas. E qualquer informação conseguida sempre será transformada em algo para aumentar o sentimento da equipe, seja ele bom ou ruim. Ele se torna o principal assunto, o foco de críticas e elogios, e, principalmente, qualquer que seja a qualidade da liderança, a parede entre o funcionário e a diretoria. A parede serve tanto para proteção quanto para esconder algo. Depende de como o líder a usa.

A questão é que as teorias, ditos e frases são muito lindas, mas na prática, no cotidiano, como colocá-las em uso? Como saber se uma decisão simples não vai causar uma baixa tremenda da popularidade em relação à equipe ou em relação à sua imagem com a diretoria ou seus superiores? Porque quando a decisão é sobre um assunto pontual, delicado e importante, é mais fácil refletir, enxergar e acertar. Os detalhes e o que ocorre de mínimo no dia a dia é que vão ser um problema. Por que a maioria das pessoas se endivida e não entende onde foi parar seu dinheiro, se o aluguel, a prestação, a escola e o carro cabem perfeitamente em seu orçamento? Porque elas não contabilizam os pequenos gastos. O raciocínio da dificuldade de gestão é o mesmo. Se há necessidade de corte na equipe, o líder vai tomar muito cuidado com o que vai decidir, calcular os impactos em todos os aspectos, buscar informações e estudar. Ele terá muito mais chances de manter sua boa popularidade ao enfrentar uma decisão assim do que ao escolher o lugar onde será a festa de final de ano da empresa.

O que era óbvio para ele enquanto funcionário, que não entendia como seu chefe não via aquilo, torna-se um ponto cego. Por que? Porque nosso pensamento parte de uma perspectiva, que, como o próprio nome diz, joga uma luz sobre determinado ângulo de uma situação, e não sobre ela toda. Ele, sentando-se agora na cadeira de chefe, tem um campo de visão de outro ângulo do que tinha da cadeira de um funcionário. Ele começa a pensar diferente. A ver as coisas diferentes do que via antes. De cima, ele vê o outro lado das decisões que toma, e percebe que para fazer o que ele queria enquanto funcionário sonhador com a liderança, ele teria que abalar um outro lado da organização. Ele começa a entender o que é realmente possível, factível e razoável. Isso quando se trata de uma pessoa com interesse em qualidade de gestão.

Cada decisão, cada palavra que ele disser, se não estiver contextualizada e bem fundamentada, pode ser mal entendida e causar um caos o clima da empresa. Como um jogo de xadrez, o novo líder começa a perceber que seus movimentos precisam de estudo de impacto e de consequências. Uma jogada mal pensada, ainda que com a boa intenção de comer o rei, pode levar à perda da partida. Então, desejo ao novo líder muita tranquilidade, pouca pressa no começo, bastante paciência para equilibrar os egos, várias leituras do tema, várias conversas com pares e amigos na mesma posição, muita pesquisa, e, claro, o bom vidro de Malox e um jogo de xadrez.



Informamos que esse texto é de inteira responsabilidade da autora identificada abaixo.

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Viviane Nishiura

Life Coach

Coach de profissionais de RH. LifeCoach e Analista Comportamental DIsc pela Sociedade Latino Americana de Coaching. Formada em Psicologia pela Universidade Mackenzie, com mais de 20 anos de atuação em RH generalista. www.nishiura.com.br