Em seu livro "ReRight Your Life: an introduction to Rheology", o psicoterapeuta Jake Eagle considera que o que provoca sentimento no ser humano, são suas próprias interpretações, portanto, cada um é responsável por tudo que sente.

Ao mesmo tempo em que acreditar nisso pode conferir um grande peso de responsabilidade, pode ser, também, algo extremamente libertador. Enquanto pensamos que as outras pessoas, com suas atitudes, ou o mundo todo, com suas injustiças, provocam sentimentos ruins em nós - sentimentos que, aliás, impactam diretamente a maneira como agimos e pensamos - ficamos presos a situações e sentimentos ruins, uma vez que sempre haverá pessoas que agem de maneira que nos pareça inadequada e nunca poderemos mudar alguém, até que este alcance o nosso padrão. Contudo, ao assumirmos a total responsabilidade pelos nossos sentimentos, nos tornamos livres para interpretar tudo o que vivenciamos da maneira que nos faça sentir (pensar e agir) melhor.

Faz mesmo muito sentido que nossos sentimentos sejam provocados pelas nossas interpretações. Imagine-se na seguinte situação: você serve a alguém uma refeição preparada carinhosamente por você e se retira para buscar uma bebida que lhe servirá em seguida. Ao voltar, percebe que o prato que havia sido entregue, agora está no chão, em meio a toda refeição desperdiçada, enquanto o certo alguém te olha fixamente sem dizer nada! Imaginando que a pessoa servida seja ingrata, deseducada, hostil e escolheu uma péssima maneira de demonstrar que não gostaria de comer, você se sentirá, no mínimo, ofendido, e seu ser se inundará de sentimentos ruins, o que lhe fará pensar duas vezes antes de voltar a oferecer uma refeição a um desconhecido. Entretanto, imaginando, por exemplo, que a pessoa servida sofra de alguma doença motora ou outro problema qualquer que a tenha feito deixar cair o prato involuntariamente, você provavelmente sentirá compaixão, ou, no mínimo, compreenderá.

E é exatamente isso que acontece na maioria das vezes em que nos chateamos e permitimos que essas chateações criem certos bloqueios em nós ou prejudiquem nossos relacionamentos. Até que alguém pare diante de nós, olhe nos nossos olhos e diga: "Eu quero te prejudicar", isso continuará sendo apenas uma interpretação nossa. E a boa notícia é que somos livres para mudá-la.

Enquanto nos sentirmos afetados pela suposta maldade, inveja, injustiça, violência, estaremos presos a uma única possibilidade, à única opção de habitar um mundo cruel, onde a maioria das pessoas oferece algum risco. Mas... E se as pessoas não quiserem nos prejudicar? E se elas não estiverem movidas pela inveja ou pelo ódio? E se houver mais bondade do que maldade dentro de cada ser que nos cerca? E se no momento em que essas pessoas estiverem sendo ruins, elas estiverem se esforçando em ser um pouco melhor, estiverem no processo de sua evolução ou iluminação? E se alguma luta, alguma dor fizer com que no momento em que se encontra comigo, os olhos de alguém se feche para as minhas necessidades? E se for só isso?

São possibilidades! E, diante de possibilidades, não estamos mais presos! Ao contrário, estamos livres para analisar qual interpretação nos provocaria sentimentos e ações verdadeiramente melhores para nós mesmos e, então, adotá-la.

Sei que nessa linha de pensamento inegavelmente existe uma curva chamada padrão mental - a constituição e solidificação das nossas crenças, do nosso modelo de mundo, como resultado de todas as nossas vivências. É verdade, e é algo muito forte em cada ser, mas os padrões mentais podem ser quebrados, tanto quanto podem ser herdados. Se pensar da maneira como fui ensinada a pensar durante toda a vida, de repente tem me limitado ou até prejudicado, eu sou livre para experimentar um pensamento novo. Se criei defesas ao longo da vida por ter vivido experiências ruins com pessoas ruins em algum momento da minha existência, eu sou livre para escolher olhar para as pessoas que me cercam agora, como sendo diferentes das pessoas de antes. E existe dentro de cada um o potencial para encontrar o equilíbrio entre essa abertura de mente, ampliação de visão e a prudência.

Essa é uma das maneiras de escolher a vida que se quer levar, de optar pelo tipo de pessoa que se quer ser e de compreender que, no fim das contas, tudo o que garante o nosso bem estar, está centrado em nós! Talvez não possamos mudar a vida que tivemos, mas podemos escolher a vida que queremos ter a partir de agora.



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